Ensaio sobre a influência da Soberana Ordem de São João de Jerusalém na Maçonaria.
- garciacruz5
- 17 de mai. de 2022
- 37 min de leitura

Agradecimento especial aos QQII Rogério T, Carlos F, João F, Luís C, José R, Adílio J M, Luís V B, António P L, António de Oliveira Marques e tantos outros II que tocaram na minha vida. Agradecimento à respeitável artista Pascale Lagneaux pela magnífica imagem oferecida e que se incorpora como capa deste ensaio. Que Deus nos ilumine sempre no nosso caminho e perdoem-me algum erro cometido nestas palavras.
Vosso em S. João
Sir Luís Cruz, Mestre Instalado.

Introdução Inicío o ciclo de ensaios sobre a influência das ordens cavaleirescas na maçonaria pela clara influência da Soberana Ordem de S João Esmoler de Jerusalém na Maçonaria, crendo, convictamente, ser a Ordem que mais influenciou os nossos preceitos. Desejo assim trazer à luz alguns esclarecimentos e contextualizações sobre a augusta Ordem Maçónica e, apesar dos sábios conhecimentos que traz aos ouvidos de quem ouve e que se permite delapidar as arestas do seu carácter e comportamento, a maçonaria e seus membros resumem-se somente nas acções que practicam para elevar a humanidade. Índice Introdução Capítulo I Soberana Ordem de S. João de Jerusalém Capítulo II S. João, o Esmoler. Capítulo III Ordem de S. João Esmoler de Jerusalém e Maçonaria Capítulo IV S. João Esmoler Patrono da Maçonaria Capítulo V A Nobreza está nos actos Capítulo I Soberana Ordem de S. João de Jerusalém Julgo necessário dar um pequeno contexto histórico dos cavaleiros hospitalários, para nosso conhecimento e até para situarmo-nos na própria história da Maçonaria, suas semelhanças e diferenças. No ano de 1020, o califa Dehara Ladimellah concedeu permissão a um grupo de marinheiros Amalfitanos para estabelecer, em Jerusalém, um distrito com bairros comerciais, prestando alojamentos aos viajantes e construindo igrejas e abrigos para apoio aos enfermos e peregrinos cristãos, muitas vezes vítimas de violência e perseguições. Foi então que uma irmandade monástica de Hospitalários, foi criada com o propósito de administrar a “Domus Hospitalis”, dedicada a São João Esmoler. No ano de 1090, Frei Gerardo de Sasso, reconhecido como o primeiro Grão-Mestre da Ordem, começou a desenvolver acções de apoio, não só a favor dos comerciantes e peregrinos, mas também em apoio à crescente irmandade dos “frades” que se expandia ao longo de todos os lugares sagrados. Esta Irmandade que adquiriu características próprias acabou por se tornar em si uma instituição e passou a actuar a favor dos Cruzados. No ano de 1100, a Irmandade recebeu doacções de diversos príncipes e nobres cristãos, consideradas títulos legítimos da Ordem, e assim nasceu uma Nação sem fronteiras e um Reino sem dinastia, a Ordem de S. João de Jerusalém, que perdura até aos nossos dias. Em virtude da bula pontifícia de 15 de fevereiro de 1113 e actos seguintes, o Papa Pascal II aprovou a instituição dos Hospitalários de São João de Jerusalém, livres de qualquer autoridade civil ou eclesiástica. A pequena Irmandade estendeu-se além das fronteiras da Palestina, por todos os domínios cristãos. Papa Clemente V, bula Vox in excelso de 23 de Marco de 1312, concílio de Viena, atribui à Ordem, legal e justamente, a Soberania. O facto de ter sido proclamada como estado, não conhecendo poder superior na ordem externa nem igual na ordem interna, com poder absoluto como estado-nação e que permanece até hoje, diferencia-se de outras Ordens de S. João, mesmo aquelas re-criadas posteriormente pela Santa Sé e por algumas outras nações. Contudo os planos, a estratégia e os propósitos da Ordem mudaram com Frei Raymond Du Puy, em 1120 e a presença da Ordem de S João em Jerusalém foi especialmente significativa nos anos vindouros. A defesa do reino latino de Jerusalém e o desabrochar do espírito de cavalaria foram as causas determinantes que levaram os “irmãos em S. João” a tornarem-se “equites et servientes armigeri”. Por vontade de Inocêncio III, as tarefas hospitalares iniciais foram complementadas com funções militares, defendendo os domínios cristãos e defendendo a caridade hospitaleira. A estrutura religiosa e cavaleiresca fundava a legitimidade em que defender o Reino Latino de Jerusalém, que Deus desejava, era um dever a que nenhum cristão poderia fugir. Os Cavaleiros, que adoptaram como insígnia a cruz branca octogonal, lutaram pela defesa dos enfermos e fracos, pelos peregrinos, pela rectidão e pela justiça, curando, confortando e enterrando os necessitados. Os Cavaleiros de S. João participaram na 2ª Cruzada (1147-1149) e na expedição contra Damasco (1148). O sucesso destas expedição permitiu um restabelecimento de reservas financeiras, abriram-se novos assentamentos, receberam também propriedades por toda a Europa e a Ordem tornou-se um dos bastiões da fé cristã. Em 1187, Saladino, depois de tantas vitórias retumbantes e conquistando tantos territórios, cruzou o rio Jordão. As defesas conjuntas dos Cavaleiros da Ordem de S. João, Cavaleiros Templários e Cavaleiros do Santo Sepulcro, foram aniquilidados na tentativa vã de impedir a reconquista de Jerusalém. A sede da Ordem foi então transferida para Margat, na Síria. Facto curioso é que Saladino chegou a oferecer uma recompensa maior a quem capturasse um hospitalário, do que qualquer outro cavaleiro de outra ordem. Durante a 3ª Cruzada (1189-1192), guiada por Ricardo Coração de Leão, São João do Acre foi libertado e tornou-se a nova Sede da Ordem. Tendo sido abandonado em 1291 após uma resistência heróica a um longo cerco, pelo Grão-Mestre Jean De Williers. Os Hospitalários retiraram-se para Chipre durante os 20 anos seguintes, durante os quais tomaram parte na conquista de Rodes e aí permanecendo por mais dois séculos. Rodes foi atacado várias vezes e, em 1 de janeiro de 1523, caiu nas mãos do exército de Solimão, o Magnífico, sultão do Império Otomano Turco, e os Hospitalários foram autorizados, dado a coragem que demonstraram, a se retirarem com as bandeiras e sua honra intacta. Na Europa, os Hospitalários construíram uma rede de propriedades e terras, conhecidas como Priorados, que gerou receitas para financiar o atendimento aos enfermos e suas campanhas militares. Em 1530, o Sacro Imperador Romano Carlos V concedeu aos Hospitalários a ilha de Malta, que se tornou sua sede. Tendo-se então tornado vulgarmente conhecidos como Cavaleiros de Malta. Os Hospitalários passaram a patrulhar o Mediterrâneo, com cavaleiros advindos de todas as nações, especialmente as europeias e onde não faltavam os cavaleiros portugueses. A Ordem teve um papel fundamental em Portugal, que deixaremos para os historiadors, mas destaco os Grão-Mestres Soberanos da Ordem dos Hospitalários, os portugueses Fernando Afonso de Portugal, filho bastardo de Afonso Henriques (Santarém, 1135 – Évora ou Santarém, 15 de março de 1207); Luís Mendes de Vasconcelos (Évora, 1542 – Malta, 7 de Março de 1623); António Manuel de Vilhena (Lisboa, 28 de maio de 1663 - Malta, 10 de dezembro de 1736) e Manuel Pinto da Fonseca (Lamego, 24 de Maio de 1681 – Valletta, 23 de Janeiro de 1773). D. Fernando de Portugal encontra-se sepultado na igeja de S. João de Alporão, em Santarém e que se denominava, nos séculos XIII e XIV, Mosteiro de São João do Hospital. A fundação deste templo deve-se, de facto, à Ordem de São João, cuja fixação na então vila se deu entre 1159 e 1185.

Igreja de São João de Alporão: vista da fachada principal.
Os monumentos funerários dos restantes Grãos Mestres encontram-se na Capela de Castela, Leão e Portugal - dedicada a Santiago Maior e destinada aos cavaleiros destes reinos. Esta capela é uma das oito ricas capelas da Catedral de S. João, em La Valleta, cada uma das quais dedicada ao santo padroeiro das 8 línguas (secção ou origens) dos Cavaleiros da Ordem. Os cavaleiros da Ordem reuniam-se nesta Capela magnífica e de acordo com a capela correspondente ao seu reino.
No quadro abaixo de Manuel Pinto da Fonseca, que fora amigo de Cagliostro e como curiosidade destaca-se os seus trajos anacrónicos, com armadura e elmo próprios do Séc. XVI. O elmo, semelhante ao que Rainer Dahenhardt afirma ser o elmo usado por D. Sebastião em Alcácer Quibir, repousa sobre crescentes lunares mouros, em número de cinco no estandarte, correspondentes a 5 turcos que Manuel Pinto da Fonseca teria quinado sozinho, mas fora António Manuel de Vilhena o mais amado pelo povo de Mala devido ao seu trabalho de caridade.

- Retrato de Afonso de Portugal; enquanto Grão-Mestre da Ordem dos Hospitalários, na Igreja de São Brás e Santa Luzia. - Retrato de António Manuel de Vilhena - Retrato de Manuel Pinto da Fonseca A partir de 18 de maio de 1565, os Cavaleiros, comandados por seu Grão-Mestre, Jean Parisot de la Vallette, sofreram o que os historiadores chamam de Grande Cerco. Uma frota de 200 navios com 50.000 muçulmanos lançou um ataque e, por quase quatro meses, os Cavaleiros, com apenas 9.000 soldados, resistiram e mataram mais de 20.000 inimigos. Grão-mestre La Vallette estava na linha de frente, apesar de sua idade avançada de setenta anos, conseguiu libertar Malta após a preciosa chegada de reforços. Os turcos otomanos perderam seu poderio naval no mar Mediterrâneo e, por dois séculos, Malta permaneceu inviolável. Essa vitória teve um grande eco na Europa, e a Frota da Ordem tornou-se uma das mais poderosas do Mar Mediterrâneo. Junto com a armada do Rei da Espanha, a Ordem participou de três gloriosas aventuras: em 1541, a conquista de Argel; em 1551, o empreendimento de Zoara; e em 1559-60 a expedição a Trípoli e conquista de Djerba. Mas os compromissos militares jamais superariam a vocação hospitaleira dos Cavaleiros. O Hospital de Malta, Sacra Enfermeria, era único no mundo: piso de mármore, tapeçarias nas paredes, talheres de mesa e camas com lençóis de linho fino, um luxo que não existia em nenhum outro lugar naquela época. Escolas de anatomia, medicina e cirurgia foram estabelecidas em Malta. Com a ajuda do Papa e dos Reis da França, Espanha e Portugal, os Cavaleiros construíram palácios, igrejas e a bela Catedral de São João dos Franceses. A Revolução Francesa, de forte cunho maçónico, irrompeu na Europa como uma tempestade para as Ordens Cavaleirescas. O património dos hospitaleiros em França foi confiscado, em 1792 e posterirmente em Itália também. As Ordens da Cavalaria, em grande parte, foram suprimidas pela Europa devido à Revolução e às Invasões Napoleónicas. Na manhã do dia 12 de Julho de 1798, em concordância com o Grão Mestre da Ordem de S. João, Napoleão desembarcou e entrou a pé na cidade de La Valletta. Napoleão apoderou-se da herança de glória e sangue dos Cavaleiros Hospitalários e em traição ao acordo efectuado e nunca cumprido, de receber os Cavaleiros em França de acordo com o seu estatuto. Devido ao erro estratégico do Grão-Mestre, o alemão Ferdinand von Hompesch zu Bolheim, que acreditou no acordo com Napoleão, os hospitalários viram-se, de repente, privados da ilha de Malta, tendo que fugir. Alguns voltaram para seus próprios países, outros estabeleceram-se brevemente na Rússia, com o Czar Paulo I como seu grão-mestre de facto (embora fosse um cristão ortodoxo), outros exilaram-se em Roma e a Igreja aproveitou para fundar a Soberana Ordem Militar Hospitalar de São João de Jerusalém, SMOM. Inglaterra, que tomou então a Ilha de Malta em 1814, após as invasões Napoleónicas e como parte do tratado de Paris, tornando-a sua colónia até 1964, possui também a sua Ordem de S João, em obediência à Rainha. Estas duas ordens são dois dos descendentes da Ordem de S. João, contudo permaneceu a original como nação independente até aos dias de hoje, tendo-se tornado uma Federação. A Ordem de S. João de Jerusalém evoluiu, mas sempre foi uma Ordem que se diferenciou das demais e pela sua nobreza de carácter continua o seu trabalho muito discretamente, honrando as tradições, código de cavalaria e a Declaração dos Direitos do Homem. Promovendo uma cultura geral pluriforme, respeitando e aprendendo com as especificidades de cada uma das culturas dos diferentes países, e dentro desses países, as culturas das suas religiões, e dentro das religiões as culturas individuais de cada homem, na Paz de Cristo. A Soberana Ordem de S. João de Jerusalém é uma das mais nobres ordens existentes nos nossos dias. A sua evolução ao longo de 900 anos é um fenómeno de vitalidade e os seus objectivos são dos mais elevados valores do Ser Humano que, obviamente, influenciou e influencia diversas culturas e organizações. A procura pelo bem-estar do próximo não é um sinal de fraqueza ou inferioridade, mas um verdadeiro cumprimento dos ensinamentos dos grandes Mestres do mundo, como Jesus, Buda, Maomé, Confúcio e outros, que assumiram os verdadeiros valores humanos de Amor e Justiça. Em momentos de aflição S João, o Esmoler procurou sempre proporcionar o evoluir daqueles que necessitavam. Nos dias de hoje sabemos que nasceram homens por todo o mundo que se destacaram pelas suas atitudes e acções, como Lao Tsé, Jesus, Ghandi, Maomé, Martin Luther King, etc, que Deus decidiu onde nasceriam e a que estavam destinados. Como cristão digo, Bom e Belo é o Hinduísmo, o Islamismo, o Taoismo, Judaísmo, Xintoísmo, Candomblé, Espiritismo, Animismo, Druidismo e todas as outras formas de louvar a Deus e a Humanidade, tão ricos são os conhecimentos destes povos que nos enriquecem e fazem-nos ver outras realidades, outras formas de viver. Tão bela é a cultura dos índios nativos sul-americanos e que estão a ser exterminados sem fazermos nada, tao profundas são as culturas animistas de Africa e que migraram para as Américas e que, cujas tradições estão infelizmente a desaparecer em Africa, tão sábio foi Huang Di, o Imperador Amarelo e os seus tratados de medicina tradicional chinesa que perduram até hoje. Linda é a criação de Deus, a Natureza na sua diversidade e em todas as suas manifestações. O Cavaleiro de hoje é um cidadão do mundo e conhece a história dos povos, elevou os seus princípios humanitários a uma escala global.

Cavaleiros da Ordem de S. João de Jerusalém na Arménia, por Henri Delaborde.
Como tal, depois da introspecção pessoal, devemos tentar aperfeiçoarmo-nos através das decisões que tomamos no dia-a-dia e integrarmo-nos espiritualmente no trabalho de aperfeiçoamento da sociedade. Neste sentido, trabalhamos, não pela comida que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna (S. João: 6,27). Este alimento diferencia-nos de outras ordens, que pelo seu carácter militar usaram e/ou usam das espadas. O Hospitaleiro usa o coração para fazer na terra o divino trabalho de ajudar o próximo nas suas necessidades, sem julgamentos sem preconceitos. Os seus objectivos são dos mais elevados valores Humanitários. Capítulo II S. João, o Esmoler “…Então o Homem, que tinha pleno poder sobre o mundo dos seres mortais e animais, lançou-se através da armadura das esferas e rompendo seu envoltório fez mostrar à Natureza de baixo, a bela forma de Deus. Quando ela o viu, … a Natureza sorriu de amor, pois tinha visto os traços desta forma maravilhosamente bela do ser humano se refletir na água e sua sombra sobre a terra. Tendo ele percebido esta forma semelhante a ele próprio na Natureza, refletida na água, amou-a e quis aí habitar. Assim que o quis, foi feito e veio habitar a forma sem razão. Então a Natureza, tendo recebido nela seu amado, enlaçou-o totalmente e eles se uniram pois queimavam de amor…. Poimandres: "O que vou te dizer é o mistério mantido oculto até este dia. A Natureza com efeito, tendo-se unido por amor ao Homem, causou um prodígio surpreendente.” Discurso de Poimandres, Corpus Hermeticum O Amor é dos conceitos mais incompreendidos, não sendo exclusivo do homem, já existia na Natureza e existirá depois. O Amor é a única forma de linguagem universal com que todos os seres se devem comunicar. O Pai perdoa, mas a Natureza é justa na sua sabedoria e na sua oposição dualista, como referiu Francis Bacon “Para dar ordens à natureza é preciso saber obedecer-lhe”. Os irmãos sabem que o Livre Arbítrio dado pelo Grande Arquitecto do Universo, a quem não for justo nas palavras, nos actos e nos pensamentos, nunca vai ser um bom homem, por mais títulos e insígnias que traga ao peito, de nada lhe vale. Este caminho que escolhemos é penoso, qual o dos homens justos não foi? Temos muitos exemplos na história de irmãos santos, justos que padeceram o caminho do sofredor, principalmente devido aos obstáculos que o próprio homem lhes colocou. Apenas, devido a estes estarem confortáveis no alto de suas cadeiras, que nem traidores e intriguistas para prevalecer os seus interesses egoístas. Mas a roda do mundo gira todos os dias e é inevitável o devir. Pela sua perseverança, firmeza de carácter e sentido de justiça aquele que vem dizer aos vendilhões do templo que não profanem a casa do Pai acaba na cruz dos homens. Como refere S João Evangelista “Segui o exemplo do Mestre, repeli o orgulho e a soberba, não odieis, não invejais, pensai o bem, sede tolerantes e caritativos. Vigiai e Orai. Nunca esqueçais as palavras de Jesus: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Se as tiverdes sempre presentes; à soberba oporeis a humildade; à intolerância oporeis a razão que se fundamenta no raciocínio e na observação; aos propósitos de violência oporeis palavras de moderação; ao pobre que virdes com frio não hesitareis em dar o vosso abafo; àquele que virdes com fome não negareis uma parte do vosso pão. Só assim obtereis a salvação e a Glória da vida.” A excelsa Ordem de S. João de Jerusalém, ou esmoler, ou misericordioso pretende reflectir a obra divina da compaixão sem julgamento moral, mas vamos conhecer um pouco da história deste homem, que até existem Lojas Maçónicas que referem ser este o verdadeiro patrono da Maçonaria, mas falaremos sobre isto mais à frente.

São João Esmoler (Amatunte, 550 - 11 de Novembro de 619).
S. João nasceu em 556, na ilha de Chipre, na cidade de Amatunte. Seu pai era um rico governador cristão que não pretendia que seu filho seguisse a vida religiosa, que desde pequeno demonstrava. Tendo obedecido às ordens de seu pai casou, mas sua esposa e filhos faleceram precocemente e tornou-se sacerdote. Seu trabalho junto dos pobres deu tantos frutos que foi eleito Bispo de Alexandria. A sua capacidade de gestão e organização rivalizavam com a sua caridade, mandou cadastrar sete mil e quinhentos pobres da cidade. Recebia-os às quartas e sextas para lhes prestar o auxilio necessário. Quando a população crista da Pérsia foi perseguida, S. João conseguiu recebe-los no Egipto prestando alimento e abrigo. Quando Jerusalém foi destruida, S. João mandou recursos alimentares e ajudou na reconstrução. Aproveito para relatar uma história curiosa de S. João; Um amigo de posses ofereceu-lhe um cobertor novo para se agasalhar, dado andar sempre com uma única coberta maltrapilha. João dormiu uma noite com o cobertor e no dia seguinte tentou vender a coberta para angariar dinheiro Contudo o amigo soube do gesto do Bispo, comprou o cobertor e ofereceu-lhe novamente, tendo-lhe dito que as vezes que colocasse o cobertor à venda iria comprar novamente e oferece-lo. Reza a história que S. João recolheu grande lucro. Quantos bispos, cavaleiros ou mestres maçons fariam isto hoje? Quantos de nós teriam este espirito de humildade e sacrificio? Naturalmente a devoção a S. João o esmoler continua a crescer nos nossos dias. Obviamente que não nascemos todos com a mesma missão, mas se cada um de nós semear um pouco naqueles que necessitam… não é necessário dar dinheiro, estou a referir a dar o que necessitam, alimentos, educação, conforto. Corria o ano de 619 e S. João, já sexagenário, recebeu o convite do Imperador para visitá-lo em Constatinopla. Aceitou o convite, mas no decorrer da sua viagem, em Rodes, recebeu uma mensagem profética, de que a sua morte estava próxima e cancelou a visita ao Imperador mandando a mensagem que “O Rei dos reis também o chamava” e Ele tinha prioridade. Tendo morrido muito pouco tempo depois na “sua” Ilha de Chipre. Segindo a história da aparição da Caridade a S. João foi-lhe revelado "Eu sou a filha mais velha do Senhor Rei. Se você for meu amigo eu o levarei a Ele", ele seguiu sistematicamente a política de "Esmoler" (aquele que dá esmolas) até à sua morte. Ninguém era insignificante para não ter a sua atenção. Proibiu todos os que trabalhavam para ele de receberem presentes, que considerava uma forma de suborno e acabou com a corrupção em sua diocese. Canonizado pela igreja ortodoxa e católica, caso raro, é um homem até hoje venerado por muitos credos e ritos, pelas suas acções, não pelo seu dom de oratória, que muitos usam-na para dissimular, nem pela sua santidade, nem tampouco pela mitologia já criada, mas sim pela nobreza dos seus exemplos. Como diria Séneca “ A virtude, embora oculta, deixa seus vestígios para quem dela é digno. Este filósofo estoicista que muito influenciou também a cultura cristã, referia que um homem apenas se reconhece pelos seus actos. Observamos claramente que as ordens cavaleirescas infuenciaram a maçonaria, outra ordens surgidas durante o Iluminismo até deram origem a Ritos, como o RER. Contudo pouco se fala dos irmãos hospitalários; Terá S. João Esmoler ou S. Giovanni Elimosinario e a Ordem de S. João de Jerusalém influenciado a Ordem da Maçonaria Universal? Este ensaio serve para trazer a luz algumas conclusões sobre tal e espero trazer mais dúvidas que certezas, pois ao sábio cabem as dúvidas e ao ignorante as certezas. Capítulo III Ordem de S. João Esmoler de Jerusalém e Maçonaria
“A Natureza nos uniu em uma imensa família, e devemos viver nossas vidas unidos, ajudando uns aos outros” Lucio Anneo Séneca Não é possível definir a Maçonaria no seu todo, dada a tamanha extensão e complexidade, tal como a riqueza de conhecimentos da Igreja Católica ou do Taoismo, por exemplo. Os seus estudos são profundos nas mais variadas áreas e os seus rituais passíveis de várias interpretações, crendo mesmo que a verdadeira sabedoria é compreendida e seguida por muito poucos, não obstante o número de membros nas suas fileiras. A Maçonaria exotérica define, em termos de filosofia social e política a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, enquanto do ponto de vista esotérico baseia-se em postulados morais e postulados religiosos. Originária dos sistemas filosóficos e religiosos das doutrinas cavaleirescas, de quem descende, mas também das doutrinas orientais, possuindo profundas influências egípcias, judaicas e cristãs, formas ritualistas, conteúdos mágicos, valores e regras de conduta universais, racionalizações de uma instituição complexa com objectivos humanitários bem definidos. A maçonaria não se revê num sistema doutrinário, pois, na procura da verdade divina, não existe razão para uma divisão doutrinária ou litúrgica. Contudo, cultivando um humanismo universalista, possui um carácter político e administrativo, pela sua responsabilidade de elevar o bem-estar da humanidade e nunca usar os seus esforços para objectivos e interesses egoístas, isto aplica-se seja em que ordem ou religião for. A maçonaria é assim ecuménica, deísta (teísta para outros) e transversal à religião, filosofia e ciencia, pois a Liberdade só se encontra na Verdade. Contudo, o que é certo e sabido, é que a maçonaria procura o divino e trabalha para o aperfeiçoamento e evolução do Homem, tornando-o mais altruísta e de bons costumes. Tudo parte deste princípio de aperfeiçoamento contido e revelado a quem procura a Luz. Tudo se inicia neste princípio e quem não o consegue cumprir nunca chegará a ser maçom por mais medalhas que traga ao peito e por maior e mais elaborado seja seu avental, o mesmo se aplica também a todas as outras ordens. O excelso objectivo, e de cariz mais interno, é o de religar o homem ao Grande Arquitecto Do Universo, através dos cumprimentos de regras assentes num código de conduta que permite ao maçom evoluir pelas suas boas acções e, simbolicamente, se elevar de grau em grau. O verdadeiro culto está na prática da virtude, “fazei o bem só por amor do Bem”, tendo como princípio a tolerância e o respeito recíproco, sem impor dogmas ou exigir subserviência espiritual, exigindo dos seus membros um espírito aberto e tolerante. Neste sentido já se encontra diversas semelhanças com a Ordem de S. João de Jerusalém e com outras Ordens de cariz cavaleiresco. O maçom deve dedicar parte do seu tempo para assistir às reuniões maçónicas no trabalho de loja e à prática da moral, da igualdade e da solidariedade humana e da justiça em toda sua plenitude. Todos os maçons devem ensinar e praticar as virtudes que lhe são reveladas e ensinadas quando e é desvendado o aumento de salário, devendo equilibrar e enaltecer as relações humanas e principalmente compreender que o Trabalho é o meio pelo qual se dignificam. Num contexto histórico a origem da Maçonaria perde-se na Idade Média, se considerarmos as suas origens Operativas, ou seja as associações de pedreiros construtores, que tinham como ofício a arte de edificação de castelos, muralhas, igrejas etc, conhecida por Maçonaria Operativa ou de Ofício que resplandeceu na Idade Média, sob a influência espiritual da Igreja. A Maçonaria Primitiva, ou "Pré-Maçonaria", apesar de ser este um assunto especulativo nem sempre aceite pela história, é o período que abrange todo o conhecimento herdado do passado mais remoto da humanidade até o advento da Maçonaria Operativa. Há quem busque nas civilizações e nas ordens iniciáticas antigas a origem do sistema filosófico e doutrinário da Maçonaria. Há aqueles que ensinam que ela teve início na Mesopotâmia, outros confundem os movimentos religiosos do Egito e dos Caldeus como sendo trabalhos maçónicos, toda a lenda vai sendo desvendada ao neófito na elevação dos graus e ensinamentos sobre o Mestre Hiram, construtor do Templo de Salomão. A cultura egípcia, grega, panteísta, astrológica, etc. é observável para aquele que está atento e deseja penetrar nos conhecimentos por detrás dos símbolos, graus e ritos. Oficialmente a Maçonaria Moderna ou Especulativa descende dos antigos construtores de igrejas e catedrais e os primeiros documentos de grande importância para a Maçonaria – não por coincidência – surgiram na altura em que a Ordem Maçónica estava directamente ligada à arte da construção e que teve o seu apogeu no século XVII, com a reconstrução física da cidade de Londres, 1666, berço da maçonaria regular. A Constituição de York, o Manuscrito Régius, o Manuscrito de Cooke, os Estatutos e Regulamentos da Confraria dos Talhadores de Pedra de Estrasburgo, o Regulamento de 1663 ou Leis de Santo Albano, os Manuscritos de Harley, Schaw e Kilwinning, constituem-se documentos que viriam compor a Maçonaria Moderna e que ficaram conhecidos como as “Old Charges”, ou Antigas Obrigações ou Antigos Deveres são escritos que se referem às Lojas e aos Regulamentos Gerais. Tais manuscritos ilustram os deveres, os segredos, os usos e os costumes dos Maçons Operativos, tais como as landmarks de Andersons e Mackays que vieram posteriormente no Séc. XVIII e XIX e constituem-se como base da jurisprudência para a Maçonaria Moderna. A Maçonaria Especulativa, moderna, utiliza os moldes de organização dos maçons operativos juntamente com ingredientes fundamentais como o pensamento iluminista, a ruptura com a Igreja Romana, laicização dos governos e uma profunda influencia politica no Novo Mundo e na velha Europa. Por razoes que não julgamos, a Maçonaria recebeu uma bula excomungando todo o maçom, pelo Papa Clemente XII, a 28 de Abril de 1738, que proibiu os católicos de se tornarem membros de lojas maçónicas, através da bula In eminenti apostolatus specula, surgindo 20 outras referências desfavoráveis posteriores, fazendo com que dezenas de sacerdotes da Santa Sé abandonassem a Maçonaria. Diria também que existe um afastamento entre a maçonaria anglo-saxónica e a maçonaria latina, devido a algumas particularidades e diferenças. Ritos de Emulação e York que predominam mais nas Grandes Lojas Inglesa e Norte Americanas e os Rito Escocês Antigo e Aceite e o Rito Francês na Maçonaria, diria, na maçonaria mais latina, mas outros Ritos, como o Rito Escocês Retificado, Rito Memphis e Misraim, Adonhiramita, Rito Português, Brasileiro, etc tem as suas lojas nas Grandes Lojas Europeias e Sul Americanas. Sobre o Real Arco e Arco Real vamos deixar para outro estudo, para não estender demasiado este ensaio. Encontramos influência da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo na Maçonaria, e da Ordem Teutónica em diversos ritos, nos altos graus do Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) e no Rito Escocês Rectificado (RER), menos conhecido nos países anglo saxónicos mas em crescimento nos países latinos europeus e sul-americanos. Este Regime Escocês Rectificado ou Rito de Willermoz é um rito cavaleiresco templário cristão, estruturado pelo Venerável Mestre de Lyon Jean Baptiste de Willermoz (Lyon,1730-1824), que comummente se refere que advém exclusivamente da estrita observância Templária com claras diferenças ritualísticas de enorme interesse, em relação aos demais ritos. Por coincidencia Willermoz fundou a 1ª Loja deste rito chamada “A Benevolência”, em Lyon. Benevolência tem mais sentido nos Hospitalarios e Lazaristas do que nos Templários. Permitam-me referir que o RER é um rito mais abrangente e da estrita observancia Cavaleiresca, não apenas templária, estando bem enraizado toda a doutrina da Ordem de S João de Jerusalém a par da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (em latim: "Pauperes commilitones Christi Templique Salomonici"), vulgo Templários, que foi criada através da bula papal Omne datum optimum, emitida em 29 de março de 1139 pelo papa Inocêncio II e extinta no início do Séc. XIV, mas cujos ramos de ordens templárias e investiduras aumentam significativamente nos nossos dias. Na tradição católica-cristã existem muitos Santos com o nome de João. No entanto, apenas dois deles são mais abertamente consagrados pelos Maçons... São João, “ O Batista” e São João, “O Evangelista”, talvez por não ter existido ainda uma pesquisa sobre São João “o Esmoler” e verificado o quanto Ele e a Ordem de S João de Jerusalém influenciaram a Obediência Maçónica. Precisamente esta questão que vamos trazer à luz, numa tentativa pertinente de esclarecimento. A Ordem de S. João de Jerusalém manifesta-se transversalmente aos ritos, graus e obediências. Ora vejamos: As acções de solidariedade ou beneficência em auxílio a quem – maçon ou profano – necessita, a nível da Loja, são coordenadas pela função de Hospitaleiro e a nível da Grande Loja, coordenada pelo Grande Hospitaleiro. As lojas escocesas que se reúnem sobre obediência regular ou irregular na maçonaria dita operativa possuem um oficial que assume diversas denominações; Esmoler, Hospitaleiro ou Elemosinario, consoante o rito ou o grau de abertura de loja. Nos altos graus maçónicos, maçonaria especulativa ou filosófica surgem cargos de oficial como Grande Esmoler ou Grande Hospitaleiro entre outros nomes sinónimos de hospitaleiro. O maçon que desempenha o cargo de oficial Hospitaleiro define-se por ser o décimo na respectiva hierarquia na maçonaria operativa, entre o Tesoureiro e Cobridor, encarregado de distribuir esmolas e subsídios a maçons ou profanos necessitados, de visitar os maçons enfermos ou infortunados e, em geral, de todos os actos de natureza caritativa que possam ser requeridos. Este cargo existe, praticamente com a mesma denominação, nas lojas de todos os graus e nas Grandes Lojas de diversos países também, como veremos mais abaixo. O irmão Hospitaleiro ou Esmoler não assume uma função de segunda categoria, destaco a exclente prancha da R:.L:. Mestre Afonso Domingues, cujos trabalhos académicos são de louvar e cuja prancha do Q:.I:. Rui Bandeira aqui refiro. O irmão Hospitaleiro ou Esmoler na maçonaria tem uma das funções mais importantes em loja e a sua selecção é feita anualmente pelo Venerável Mestre em loja ou pelo Grão Mestre da Grande Loja, no caso de Grande Esmoler ou Grande Hospitaleiro, cujas funções são practicamente idênticas. O maçon selecionado para desempenhar as funções de hospitaleiro deve ter características pessoais específicas, nomeadamente; disponibilidade de tempo e uma moral sem mácula, ter tacto e cortesia no trato, vigilante e paciente, bom observador e discreto e, pela firmeza de seu carácter, não ser alvo fácil da piedade cega. Não deve, entretanto, ser duro ou inacessível, nem deixar de ser humilde. Sua função caritativa e humana deve ser reconhecida por todos, mas deve ser exercida com justiça e seriedade, para que todos possam contar com seu saudável apoio, quando dele necessitarem. O papel central da função de Esmoler (hospitaleiro) como oficial é ser os “olhos e ouvidos”, assumindo o compromisso de ajudar as pessoas e necessita de tempo e energia para se dedicar ao benefício dos membros da Loja e seus dependentes. Pobreza não é uma coisa fácil de se admitir e, muitas vezes, preocupações com a saúde são mantidas escondidas. Muitas vezes é doloroso admitir para os outros o que parece ser um fracasso e a confidencialidade e discrição são uma abordagem obrigatória que pode ser a chave para aliviar essas preocupações. Quando os problemas apresentados sejam de difícil solução, o Hospitaleiro, deverá levá-los ao Venerável Mestre para que, juntos estudem uma maneira de solucioná-los, mantendo a descrição e não devendo divulgá-los em Loja, salvo em decisão contrária do Venerável Mestre. O Esmoler ou Hospitaleiro assume funções bem definidas: - Manter contacto e estar informado sobre as necessidades dos irmãos; - Manter contacto regular e realizar visitas a membros da Loja doentes ou angustiados, às viúvas, aos familiares de irmãos recém-falecidos e estar atento às necessidades e problemas dos membros da Loja que possam precisar de apoio e seus dependentes; - Estar ciente dos objetivos e actividades das instituições de caridade maçónicas e aceder ao apoio que eles oferecem. - Fazer com que novos membros, neófitos, sejam bem-vindos, em conjunto com o I:. Proponente e Segundo Vigilante (responsável pela coluna dos aprendizes); - Manutenção de registos e relatórios, bem como uma nominata actualizada, com o maior número de telefones possível. - Manter um registo dos nomes e detalhes de contacto de irmãos, viúvas e dependentes, incluindo os detalhes das viúvas e dependentes de irmãos renunciados ou excluídos. - Relatar os itens acima para os membros em cada reunião da Loja, preservando a devida confidencialidade. - Ser membro da Comissão de Solidriedade e Beneficiência, caso exista esta comissão na Loja e Grande Loja, junto com ex-Venerável, 2º Vigilante e dois outros membros, cabendo-lhes dar parecer sobre os pedidos de auxílio moral e pecuniário, estudar a forma de desenvolver e manter o cofre de solidariedade da loja, etc. Além do acima, um bom Hospitaleiro dará conta de eventos mais felizes, como aniversários, nascimentos e datas especiais, trazendo ao conhecimento de todos, para que a Loja possa celebrar e/ou enviar saudações apropriadas. Caso tenham curiosidade e para mais informações destaco o caderno de Grande Esmoler do distrito provincial maçónico de West Kent, Inglaterra; https://westkentmasons.org.uk/wp-content/uploads/2014/03/Almoners_Handbook_ Version_1.2.pdf
De uma forma resumida e não exaustiva, dou alguns exemplos da operacionalidade do esmoler e dos nomes atribuídos a esta função no seio dos graus e ritos maçónicos:
Este oficial tem funções também dentro da loja de colecta dos óbolos. No final dos trabalhos de Loja o Venerável Mestre instrói o Hospitaleiro que, com guarda, vai circular com a Bolsa do Tronco de Solidariedade ou Beneficência por todos os irmãos. Depois de recolher as oferendas para a sua bolsa, coloca-se entre colunas e anuncia ao 2º Vigilante ter finalizado a recolha, entregando o seu trabalho ao Tesoureiro que confere e anuncia o valor recolhido ao Venerável Mestre. Este valor pode ser reclamado, em parte ou na totalidade, pelo Esmoler ou outro Irmão, para sanar as necessidades daquele que esteja, realmente, carente.
Outro exemplo, no ritual de iniciação de aprendiz temos como primeira acção do recém-iniciado maçom e logo após lhe ser transmitido o toque e a palavra do grau, dado pelo Venerável Mestre, o comprometimento com a beneficência. O Venerável Mestre de uma loja de 1º grau do RER diz ao Aprendiz;” Irmão Aprendiz, acabaste de te comprometer a exercer a Beneficência para com todos os homens e principalmente para com os necessitados. Vai pois apresentar-te ao irmão Elimosinário para exerceres, como Maçon, o primeiro acto desta Virtude, colocando no Tronco da Beneficência o que achares conveniente.” Constatamos assim que de todas as virtudes a primeira é a compaixão e ajuda à humanidade.

Peça de Altar da igreja de San Giovanni Elemosinario, St. John the Almsgiver (1545-1550) by Titian;

S João Esmoler na Igreja Bragora, Venza, Itália
Encontramos o Cargo de Esmoler nos 3 primeiros graus operativos da Maçonaria contemporânea mas a função de hospitaleiro continua nos graus filosóficos ou altos Graus. Encontramos as funções de oficial hospitaleiro com os seguintes desígnios:
ESMOLER – O mesmo que Hospitaleiro ou Elimosinario. Varia a denominação deste cargo de oficial consoante o grau e o rito da loja.
HOSPITALEIRO – o mesmo que Esmoler.
Encontramos no Título SOBERANO PRÍNCIPE ROSA CRUZ, do 18º grau do REAA, o cargo de Hospitaleiro. A designação deste grau alude ao seu símbolo principal, uma rosa inscrita no centro de uma cruz. Do ponto de vista cristão, todo o ritual deste grau representa o sacrifício de Jesus Cristo (a rosa) expirando na cruz para salvar a Humanidade. Daí as palavras rituais, “I.N.R.I.”, fórmula inscrita na cruz do Calvário (“Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum”) e Emmanuel (“Deus Connosco”), as três virtudes teologais (Fé, Esperança, Caridade), a realização da ceia mística, etc. De um ponto de vista não cristão e nacionalista, o grau 18º pode ser interpretado de maneira diferente: a regeneração do homem pelo conhecimento e pela imaginação criadora, o sacrifício do homem pelo seu semelhante, a descoberta da palavra perdida na razão, a equivalência entre as três virtudes teologais e a trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade, etc. Nesta interpretação, tanto I.N.R.I. como Emmanuel adquirem também significados distintos.
Também no 19º grau do REAA, Título de GRANDE PONTÍFICE, surge o Hospitaleiro – O título alude ao sacerdócio que conduz à Jerusalém celeste pela destruição da serpente do Mal das três cabeças, simbolizadas na Mentira, na Ignominia e na Intolerância. O Grande Pontífice representa o triunfo da Verdade, da Honra e da Caridade, conhecendo o Alfa e Ómega de todas as coisas e trabalhando para elevar e enobrecer a Humanidade. A procura da Jerusalém celeste pode igualmente ser um símbolo da religião universal de que o Grande Pontífice é o sacerdote.
Como apontamento refiro que a procura da Jerusalém Celeste, Shambala, Aruanda, Avalon, Valhala, Shangrila, etc reina na mitologia como o paraíso que devemos procurar dentro de nos próprios pelas nossas acções, como qualquer Hospitaleiro deve saber. A conquista militar de Jerusalém à custa do sangue de inocentes, em busca de ouro ou salvação, não se coaduna com os nossos princípios de nos tornamos melhores humanos.
GRANDE ESMOLER – Cf. Grande Hospitaleiro.
GRANDE HOSPITALEIRO – Nome dado ao Hospitaleiro nas lojas do grau 29º (Grande Escocês), nos Areópagos (grau 30º) e nos Consistórios (grau 32º) do REAA.
No 29º grau do REAA, GRANDE ESCOCÊS DE STº ANDRÉ DA ESCÓCIA, os membros possuem o título de Respeitáveis Mestres da Luz. A designação liga se ao lendário estabelecimento, nas Ilhas Britânicas, após a sua expulsão pelos Muçulmanos, dos cavaleiros cruzados.
No 32º grau do REAA, SUBLIME PRÍNCIPE DO REAL SEGREDO, a designação alude ao vértice do conhecimento maçónico que o detentor desse grau atingiu. No seu ritual figura um acampamento, com nove tendas e cinco estandartes, onde se congregam, em exército, os maçons de todos os graus. Simbolicamente, este grau pode interpretar se como a união de todos os maçons no combate por uma nova Humanidade, depois de destruída a injustiça, a mentira e a superstição.
EXCELENTE HOSPITALEIRO OU EXCELENTE GRANDE HOSPITALEIRO – nome também atribuído ao Hospitaleiro do 30º grau do REAA, cujo titulo GRANDE ELEITO CAVALEIRO KADOSH. Em título de curiosidade a designação deste grau alude a três conceitos cuja união se realiza neste grau: o de Grande Eleito (detentor do perfeito conhecimento), o de cavaleiro (agente no mundo profano pelo amor) e o de Kadosh (sagrado ou santo). Na verdade, como último grau de ascese – os graus 31, 32 e 33 são sobretudo administrativos – o seu possuidor atingiu o cume da “ciência” maçónica (conhecimento + amor), o que lhe permite passar à acção, na sociedade, pelo triunfo dos dois lemas que defende: Deus meumque jus e Ordo ab chao. O grau recorda também a extinção da ordem do Templo com a execução do seu último Grão Mestre, Jacques de Molay, maldiz a memória dos “três abomináveis” – o papa Clemente V, o rei da França Filipe IV, o Belo, e o denunciante Squin de Florian.
CRUZ DE MALTA – Também conhecida como cruz de São João, tem oito pontas, como símbolo místico significa as forças centrípetas do espírito. Figura nas insígnias dos 27º, 30º, 31º, 32º e 33º graus do REAA.
TESOUREIRO HOSPITALEIRO (Josafat)- TESOUREIRO-HOSPITALEIRO – Oficial das lojas dos graus 9º (Mestre Eleito dos Nove) e 10º (Ilustre Eleito dos Quinze) do REAA. Acumula as funções de Tesoureiro e Hospitaleiro.

Santo Josafat
No grau 10 do REAA - ILUSTRE ELEITO DOS QUINZE surge também o nome de Josafat associado ao Hospitaleiro. A designação alude aos quinze mestres que regressaram da missão enviada pelo rei Salomão para procurar e punir os assassinos de Hiram e aos quais é cometida a tarefa de continuar a construção do templo. Um desses quinze é eleito pelos seus pares como recipiendário e representante da vontade de esquecer a missão punitiva, uma vez cumprida. Como curiosidade surge também a representação de Josafat neste cargo de oficial, que entendo não se referir à personagem bíblica da corte do Rei Salomão, nem ao Santo Josafat mártir e restaurador da vida religiosa basiliana em terras eslavas, fundador da Ordem de São Basílio Magno. Este homem santo ousou sonhar uma Igreja Ortodoxa e Católica unidas, um bispo que tal como S. João uniu em vez de dividir, pagando o preço com o seu sangue e a sua vida, sendo assinado em 1623 de uma forma brutal. Daria outro ensaio o estudo sobre este Santo. Voltando ao tema entendo a referência a Josafat como Julgamento que cabe a Deus e não aos homens. Tal como o Hospitaleiro cura o enfermo, cuida o necessitado sem julgar se foi por expiação de Deus, Karma ou castigo de um eventual desequilíbrio que proporcionou noutra vida passada.
EVERGETA (gr. ‘euergétés = benfeitor, aquele que faz obras, caridoso). Ou Hospitaleiro; oficial do 12º grau do REAA - GRÃO-MESTRE ARQUITECTO – Simbolicamente, o grau indica que só através do saber se pode atingir a verdadeira luz.
ELIMOSINARIO - Elimosinário tem variações na ortografia. Do antigo grego, eleêmosonê (1). Na Grécia antiga, era a pessoa responsável pela distribuição de esmolas.
Em outros ritos fora do rito francês, este oficial é chamado de hospitaleiro.
Outra coincidência ou evidência. O Rito Escocês Rectificado, chama ao cargo de hospitaleiro o nome de Elimosinário, cujas funções são exactamente iguais às que já apresentamos acima, oficial também encarregado das relações com os Irmãos afastados da Loja. Colecta as esmolas e redistribui-as aos necessitados. O Regime Escocês Rectificado, sendo uma ordem cavaleiresca em última análise a caridade é sua espinha dorsal. Se verificarmos linguisticamente o termo Elimosinario veremos que deriva do italiano esmoler. S. Giovanni Elimosinario, ou seja S. Joao Esmoler. No código do Grande Priorado Rectificado do Brasil, Capítulo IX diz:
1) A história da construção da palavra, em sua forma actual, parece ter seguido o seguinte caminho: Eleêmosunê, “e”(eléèmon), ou seja, aquele que sente pena, traduzido como “compaixão” e depois deslizou para a expressão “presente de caridade”. Eleê encontra-se na quíria eleison, o que significa (Deus tem pena), essas duas formas vêm de eleos (λεοç(ἐ), pena é o sentimento que toca o coração e que gera caridade e esmola.
“O Elimosinário é responsável por receber a oferta voluntária dos irmãos, apresentar o tronco das esmolas a todos os Irmãos em cada assembleia, bem como pelas extraordinárias missões…Os rendimentos de todos esses itens são reservados exclusivamente para esmolas, e a condição deste caixa será apresentada a cada três meses na Loja... Ele também será o enfermeiro da Loja, e deverá ter capacidade necessária para informar e visitar os Irmãos Doentes, para fornecer-lhes o alívio que eles precisam, e para dar-lhes em geral todos os serviços que a amizade, a fraternidade e a humanidade podem ditar a ele. Se um caso em particular exigir, pode ser levado, a seu pedido, algum outro irmão da Loja. É o elimosinário que é especialmente responsável por supervisionar a conduta dos Irmãos e por colher informações sobre as vidas e maneiras dos candidatos propostos a serem recebidos, e denunciá-los ao Comitê Escocês e até mesmo à Loja, se a prudência permitir.”
Mais que uma função meramente ritualística, as funções do Elimosinário vai além da colecta de donativos, ele é o pilar das boas práticas morais da fraternidade.

Igreja de San Giovanni Elemosinario, Veneza, Itália. Dedicada a S. João Esmoler, construída no Séc. XVII, altura em que apareceram os principais manifestos maçónicos.
Constatamos assim que o maçom que desempenha as funções de Esmoler/Hospitaleiro, desempenha as funções dos mais altos valores humanos de compaixão e apoio aos necessitados, encontraram semelhanças no acima descrito com a nossa augusta ordem? Este cargo de oficial, designações, procedimentos em loja, etc terá vindo da observância da Respeitável Ordem de S. João de Jerusalém? Obviamente que sim. Obviamente que este cargo existe sobre inspiração de S. João de Jerusalém. Como observamos outras funções e procedimentos sobre influência de outras ordens iniciáticas e cavaleirescas na maçonaria, mas a função de Hospitaleiro maçónico é indubitavelmente retirado da Ordem Hospitaleira de S. João de Jerusalém.
Joia de Oficial Esmoler
A joia é o símbolo próprio de cada função, grau ou loja, que se usa – geralmente na forma de objecto de metal – pendente das insígnias ou de uma fita especial. Simboliza a procura do conhecimento desse determinado símbolo. No caso do Esmoler a joia é uma pequena sacola que, simbolicamente, representa o Farnel do Peregrino, do Viajante, do Pedinte e que, maçonicamente, leva a Bolsa Para o Tronco da Beneficência.
O símbolo do Hospitaleiro é uma bolsa ou um saco, ou ainda uma mão segurando um saco.
Esta bolsa é onde o Hospitaleiro deve guardar os meios de auxílio e que deve figurativamente sempre carregar consigo, pois nunca sabe quando necessitará de prestar auxílio, material ou moral. Esta bolsa serve para, em cada sessão de loja, se recolher os donativos, ou óbolos, que cada maçon dá para o Tronco da Beneficência, como referido anteriormente. Mas o ofício de Hospitaleiro, a função que assegura, vão muito para além do auxílio material. Muitas vezes, o mais importante auxílio que é prestado não implica a necessidade de recorrer ao metal, que só é vil se não o soubermos dignificar pelo seu adequado e útil uso.

Joias

Colar onde se coloca ou pendura a joia do Hospitaleiro
Contudo observamos também referências na maçonaria irregular de Portugal, Grande Oriente Lusitano, no 14º grau (Grande Escocês da Abóbada Sagrada de Jaime VI) do REAA, que a joia do Grande Hospitaleiro é um BÁCULO ALADO. Este símbolo tem originado muitas confusões dado existir similaridades entre o caduceu ou emblema de Hermes (Mercúrio) e o Bastão de Asclépio, este sim associado a medicina e a Ilha de Malta, como refere Walter J. Friedlander no livro The Golden Wand of Medicine: A History of the Caduceus Symbol in Medicine.

O Caduceu, ou bastão de Hermes, está associado ao equilíbrio moral, ao caminho de iniciação e ao caminho da ascensão, da energia kundalini. A serpente da direita é chamada Od, que representa a vida livremente dirigida; a da esquerda Ob, vida fatal e o globo dourado no cimo Aur, que representa a luz equilibrada. Estas duas serpentes opostas figuram forças contrárias que podem se associar mas não se confundir. As duas serpentes entrelaçadas do caduceu também representam o número oito e são o símbolo do equilíbrio entre as forças opostas no eterno movimento cósmico, base de regeneração e de infinito.
Enquanto que o bordão ou bastão de Esculápio ou Asclépio é um símbolo relacionado com a astrologia e com a cura dos doentes através da medicina. Esculápio (em latim: Aesculapius) era o deus romano da medicina e da cura. Foi herdado diretamente da mitologia grega, na qual tinha as mesmas propriedades mas um nome sutilmente diferente: Asclépio (em grego: Ἀσκληπιός, transl. Asklēpiós).
De acordo com a Mitologia Grega, Esculápio teria aprendido a arte da cura com Quíron. Ele é costumeiramente representado como um cirurgião na embarcação Argo, construída com a ajuda da deusa Atena. Esculápio era tão habilidoso nas artes médicas que ganhou a reputação de ter trazido pacientes de volta dos mortos. Em virtude disto, foi punido e colocado nos céus com a constelação Ofiúco (significando: "o portador da serpente", ou "O Serpentário"). Tal constelação fica entre Sagitário e Escorpião. Para baralhar mais um pouco, o mais antigo registo de seu nome é encontrado na Ilíada de Homero, e nessa citação aparentemente ele ainda era considerado um mortal, descrito como o governante de Tricca e também como um médico que havia aprendido a arte do centauro Quíron e a ensinado a seus dois filhos, Podalírio e Macaão.
A meu ver a razão de este ser um símbolo de cura e muitas associações médicas modernas usarem o símbolo da serpente num poste para simbolizar a cura, prendesse com um episódio frequentemente esquecido. Durante os 40 anos em que os Israelitas atravessaram o deserto do Sinai, (Livro de Exodo) Deus continuou a fornecer o maná para comerem, mas, a certa altura, a impaciência e descontentamento fizeram com que comecassem a questionar Moisés e o alimento que Deus tinha fornecido. Como uma lição para todos verem, o Senhor enviou cobras venenosas para que muitos, de entre o povo, fossem mordidos, adoecessem e morressem. O povo percebeu o seu erro e confessaram a Moisés que estavam arrependidos pelo que tinham feito. Deus então disse a Moisés para fazer uma cobra de bronze e colocá-la num poste. Qualquer um mordido pelas cobras venenosas podia olhar para a cobra de bronze e ser curado.
As cobras continuaram, provavelmente, a ser um problema porque os israelitas mantiveram a cobra no poste e o seu uso (números 21:9) e não mais ouvimos falar da serpente de bronze novamente por muitos e muitos anos. Este símbolo voltou a ser relatado quando o rei Ezequias (13º Rei de Judá) quebrou-o em pedaços porque o povo a estava idolatrando como um Deus. Reza a história que no exacto primeiro dia do seu reinado, Rei Ezequias reparou as portas e purificou a Casa/Templo de Yah, reintegrou os sacerdotes e levitas ao seu ministério, e restaurou a celebração da Páscoa (II Crônicas 29:3 e 30:5). Além disso, combateu a idolatria em Judá proibindo o culto aos deuses pagãos, determinando também que fosse destruída a serpente de bronze construída na época de Moisés e, devido à sua obediência, a Bíblia relata que Deus trouxe paz ao seu reino. Enquanto cuidou do templo, providenciou a adoração adequada.
Como nota de interesse, Jesus comparou-se com a serpente de bronze num poste (João 3:14)., Assim como a serpente foi levantada no poste, Jesus seria levantado em uma cruz. Qualquer um que “olhe para ele” será salvo.
Capítulo IV
S. João Esmoler Patrono da Maçonaria
Ora aqui está um tema ainda mais controverso. Quem será o São João que homenageamos na abertura de loja em grau de Aprendiz?
Comummente é referido por alguns historiadores ser S. João Baptista, cuja história todos conhecem, mas será mesmo? Será S. João Evangelista? Assim sendo a Maçonaria teria um profundo carácter e preceitos cristãos, em detrimento da sua universalidade. A maçonaria eleva o espírito humando a uma condição de um Criador do Universo e não apenas do homem, respeitando todas as crenças todos os seres criados e sobre um código de conduta moral acima de qualquer credo, superstição, cultura e preconceito. Não querendo dizer que o verdadeiro cristianismo não seja assim também, mas o Q:. I:. Flávio Dellazzana, M.’. M.’. da A.’.R.’.L.’.S.’. Pedra Cintilante, 60, a oriente do Brasil refere em prancha que estes S. João são erroneamente associados como patronos da maçonaria e que, em boa verdade, é S. João Esmoler a quem abrimos as lojas e trabalhamos sob sua protecção.
A Maçonaria copiou grande parte de seus ensinamentos e do modo de agir dos Templários, além de associar São João como seu padroeiro, pois os ideais deste nobre homem, que foi elevado a condição de Santo, combinavam com a doutrina maçônica de amor incondicional ao próximo, e sua elevada determinação em lutar pela liberdade. A partir deste momento, em que a maçonaria se colocava a campo para lutar pela liberdade da humanidade, clamava a esta grande figura, que a partir deste momento, sería conhecido por todos os maçons como: São João de Jerusalém nosso Patrono. Por isso todas as lojas são abertas e dedicadas a sua homenagem, e até hoje nós somos lojas de São João. O amor dele nos contagia, e em sua homenagem é que trabalhamos para socorrer os necessitados, como ele o fez, e levar a luz do conhecimento e da verdade a toda a Humanidade.
Devemos questionar tudo e não tomar nada como certo e imutável, apenas G.A.D.U o É, mas é indubitável que o trabalho profano de cada um deve recair, principalmente, fora da sua zona de conforto. Como fez S. João Esmoler com a ajuda aqueles que mais careciam, sem olhar se eram cristãos, muçulmanos, judeus, egípcios, homens, mulheres, leprosos, nobres, etc. É um grande passo olharmos para a humanidade como uma família e vençermos os preconceitos que nos incutiram. É preciso coragem para sairmos da zona de conforto social e vermos a Verdade que é irracional tomarmos conceitos e opiniões pré concebidas sobre um individuo ou grupo social, com base em categorias e principios de generalização estereotipadas. O maçon livre deve caminhar para um sistema de valores que valorize o indíviduo e as suas caracteríticas de facto e não se preocupar com a identidade colectiva dos que partilham o mesmo preconceito.
Capítulo V
A Nobreza está nos actos!
Sua Excelência Príncipe José, Grão Mestre da Soberena Ordem de S. João de Jerusalém
A Igreja Apostólica Romana merece todo o nosso respeito e consideração, e todas as outras ordens que fazem um trabalho notável na educação, na saúde e na ajuda aos necessitados pelo mundo fora. Quando se fala de necessitados não falamos apenas de pobres e enfermos, pois muitos há com muito dinheiro e com altos cargos, mas nunca deixaram de ser pobres, outros há com pouco dinheiro e, aos Olhos de Deus, que riquezas possuirão?
Do seio da Igreja nasceram grandes homens, como S João Esmoler, Santo António, Santa Rita, S. Francisco de Assis entre tantos outros que semearam a Bondade e elevaram a Fé humana em Deus, tal como da Maçonaria surgiram homens que influenciaram o mundo positivamente. Também escondidos sobre a capa desta e outras instituições e corporações nascem indivíduos com acções nefastas para a humanidade.
Tentamos julgar os outros por aquilo que têm e não por aquilo que São. A nossa verdadeira batalha é a favor da Luz e daqueles que a semeiam, sem olharmos a mais nenhum artifício.
Em jeito final, nada existe fora da Vontade do Criador e é importante salientar que a Unidade na diversidade traduz a Liberdade de Pensamento, como num movimento simétrico invisível inspirado pela Graça, onde todos os irmãos devem estar unidos e orientados num sentido de valores e evolução. Não nos compete evangelizar, não nos compete baptizar, não nos compete profetizar, não nos compete criar ritos, mas somente semear o Bem.
O Mestre Maçon será apenas a soma de todas as suas acções. Existem muito mais semelhanças entre as instituições e os homens do que diferenças. A nossa maneira de Ser assume objectivos Universais, ecuménicos. Uma nova objectividade assente na construção do nosso Templo externo e interno, Contudo sem Amor não há caminho para seguirmos, sem amor não há respeito próprio ou respeito para com os outros, apenas ilusões de superioridade e medo. Medo criado pela ignorância. Medo do desconhecido, medo da variável constante de incerteza, pois estamos na Divina Providência. Medo de quem é mais poderoso, medo de perder materialidades, medos que o Amor nunca libertou. Essa é a Rectificação que cada cavaleiro e maçon que trilha os degraus da sua Natureza interior deve ter, na sublimação alquímica da sua natureza inferior. Não é fácil compreender, menos é ter capacidade para dar Liberdade ao próximo e agir sem prejudicar nada nem ninguém. E estas são meras palavras.
Fé e Esperança possuem o seu lugar em cada homem e não deve ser manipulada por instituições. Observamos o proliferar de seitas em todos os países, onde o nível de literacia é menor e estas igrejas proliferam pelo negócio e comércio em nome da fé. A Fé não serve para criar grilhões mentais, nem dogmas, nem preconceitos contra nada nem ninguém! A Fé serve para termos Luz e evoluirmos na escada de Jaco, ninguém evolui sem ter a Luz de um coração puro e altruísta. Ninguém tem Luz sem conseguir dominar a sua mente aos vícios e ilusões egoístas que ela cria. Encruzilhadas são colocadas a todos nós, muitos caem, independentemente de serem Cardeais, Presidentes, Mendigos ou Pedreiros.
E porque todos os profetas falaram no mesmo criador e na mesma verdade, mas fronteiras, barreiras, preconceitos foram sendo construídas pelos interesses institucionais dos homens. Na génese todos estão certos, pois o nosso Pai criou todo o Universo e todas as coisas nele contido. O Seu Espírito tocou Krishna, Moisés, David, Confúcio, Salomão, Avicena e tantos outros. A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia, como diria Albert Einstein.
A Ordem Iluminada de S. João de Jerusalém e a Maçonaria possuem uma ardente esperança no futuro, pelos actos nobres do dia-a-dia de cada um, vamos sendo as sementes no homem com um clarão abençoado na fé da construção de um mundo novo, um Homem Novo, liberto de injustiças — um mundo em que a Compaixão desdobre o seu manto protector sobre toda a Vida.
Post Scriptum -
Ordo ab Chao
A ordem está manifestada na imanência e na transcendência da criação. Nos seus diversos planos, a Lei traz o equilíbrio à harmonia do devir.
Devemos manifestar horror ao caos profundo da injustiça, e agir no sentido da recta ratio (recta razão) para afastar tudo que é desarmonioso e atrair a Luz num sistema construtivo, que se torna visível no plano da solidariedade humana, da caridade e da ajuda mútua.
Ordo ab Chao, representa a ordem surgida do caos, em que o Todo criou tudo do nada. A luz surgiu e trouxe a ordem cósmica e natural dos diversos planos correspondentes. Temos a responsabilidade de adequar a ordem a quem a profana, pois as trevas não a compreenderam. A mesma luz que faz uma planta crescer, endurece o barro, a luz que alimenta também queima, quem a quer possuir. A luz é a mesma, mas as consequências são completamente diferentes. Segundo João (3:19-21), "O julgamento é este: a luz veio ao mundo e os homens preferiram as trevas ao invés da luz porque as suas obras eram más. Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e mantém-se longe dela, pois tem medo que as suas obras sejam expostas. Mas todo aquele que pratica a verdade aproxima-se da luz para que fique claro que tudo o que ele faz é feito em Deus. Caminhando na Luz seguimos o caminho daqueles que nos antecederam e foram incompreendidos. Os grandes mestres que falam a verdade não agradam a quem manipula os outros, mas cumprem o seu processo de iluminação espiritual da humanidade.
É um aspecto fundamental, o respeito pelas opiniões e crenças de cada um, sem privilégios, mas trabalhando em conjunto para os objectivos comuns. O Irmão Cavaleiro tal como o Irmão Maçon deve imiscuir-se de questões políticas e religiosas, mas nunca fugir a injustiças. A sua força é amar a bondade e socorrer quem precisa. O campo de batalha é de não nos entregarmos a sentimentos de raiva e ódio e evitar aqueles que não têm coração e procuram conflitos. No campo de batalha deve obedecer sempre à razão, honra e moral, reflectindo e trabalhando. Combate a ignorância, a superstição, o fanatismo, o orgulho, a intemperança, o vício, a discórdia, a dominação e os privilégios. O MM tem a consciência de que não é a ocupação ou o discurso retórico que honra ou degrada o homem, mas a maneira como desempenha e como age, as suas acções e decisões é que falam por si, tendo a consciência que só o Grande Arquitecto do Universo consegue sondar o coração dos homens. Age no cumprimento da Lei de Deus e tem consciência que as consequências das suas decisões são pesadas e retribuídas ao longo do caminho, age pelo bem não porque é a forma de evoluir mas por amor à construção da humanidade.
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https://alvorsilves.blogs.sapo.pt/santelmo-2-a-nossa-malta-313954?thread=1464930
https://a-partir-pedra.blogspot.com/2008/04/hospitaleiro.html
https://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/o-verdadeiro-patrono-da-maconaria-sao-joao-de-jerusalem/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cocatedral_de_S%C3%A3o_Jo%C3%A3o_(Valeta)


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